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"A história feminina é mais diversa que pré-julgamentos”, diz Mary del Priore na BDB Cultural


  • Autora de best-sellers sobre a história do Brasil é uma das convidadas do “Mulheres empoderadas” de julho, que discute o feminino na história também com a participação da professora medievalista Maria Filomena Coelho


FOTO: Mary del Priore - Acervo Pessoal


"A história da mulher não é só uma história de sofrimento”, pontua a escritora Mary del Priore, uma das pesquisadoras mais conhecidas da história brasileira. Ela e a professora medievalista Maria Filomena Coelho costuram juntas em uma mesa da BDB Cultural uma nova visão da presença feminina na história, passando-a a uma posição mais ativa da construção social. “Mesmo em uma sociedade com todas as etiquetas históricas do medievo, as mulheres não foram completamente silenciadas”, completa Filomena. O debate entre as duas será transmitido nas redes sociais da iniciativa BDB Cultural do dia 07, quarta-feira, às 21h.


As historiadoras trazem uma série de exemplos que confundem as linhas generalistas e bem divididas do que aprendemos na escola para a mesa “Mulheres e história”, tema da edição de julho do evento “Mulheres empoderadas” da iniciativa. “O Brasil de muitas cores, um pouco como o famoso painel da Tarsila do Amaral. Para tantas caras coloridas, não cabia sempre o mesmo papel. O espaço da mulher não era sempre o da dona de casa. Muitas mulheres foram produtoras de riqueza, de força, de liberdade, e também proprietárias de escravos, guerreiras. A mulher não está à parte da sociedade, ela forma sua construção”, diz Mary del Priore.


Esse papel de integração ao sistema social e a adoção de papéis que nem sempre correspondem ao que o senso comum atribui às mulheres na história também pode ser observada, segundo Filomena, na Idade Média. “A história é muito complexa, mas nos acostumamos a pensar os sistemas sociais sempre como dicotomias, como cada um exercendo um papel. Tivemos várias mulheres em posições de liderança, inclusive reinando, durante o período medieval. Elas ocuparam lugares de destaque sem a menor interferência, sem que sua capacidade jurídica fosse suprimida. Essas exceções, porém, não impedem que o geral da sociedade seja patriarcal, masculino, guerreiro. Isso que é o interessante da história, como convivem as contradições”, afirma ela.

A história da mulher negra no Brasil e as mulheres no presente

FOTO: Maria Filomena Coelho - Acervo Pessoal


Além de discutir as posições sociais diversas e as dificuldades enfrentadas por mulheres no Brasil e na Idade Média, as pesquisadoras convidadas prometem abordar temas mais específicos em suas falas, como as influências do catolicismo na formação do papel da mulher e as diferentes condições sociais femininas dependendo de outros fatores, como a raça.


“Essa ideia de reclusão feminina a um espaço exclusivamente privado e os homens dominando o público tem origens na cristandade e também em patriarcados africanos, em nações indígenas da costa brasileira. Todas essas formações tinham o homem como figura central do poder. Mas isso não impede, como eu disse, dissidências. Algumas mulheres afrobrasileiras, por exemplo, descendiam de matriarcados fortes em que a mulher era a formadora de comunidades. Muitas delas souberam aproveitar essa posição para fazer um elevador social, investindo em letramento, em comércio, em compras de suas próprias liberdades. Algumas chegaram a acionar a justiça contra seus ex-senhores, exigindo pagamentos devidos. São posicionamentos que vão culminar em figuras como a poeta Luciana de Abreu, uma republicana, abolicionista que viveu no Segundo Império”, apresenta Mary del Priore.


“Na Idade Média coube à mulher o papel de ‘sexo devoto’, a provedora espiritual da família, com um intenso cerceamento do comportamento feminino a partir desse incentivo e da culpa pelo pecado original. É curioso, porém, que nem tudo é fácil de se resumir. Vemos reflexos desse ‘sexo devoto’ no presente. Enquanto isso, na Idade Média, toda a intelectualidade sabia que a terra era redonda, há, inclusive, uma estátua que representa um rei carolíngio, provavelmente Carlos Magno, com o orbe terrestre na mão, mas agora muitos creem que ela é plana. Portanto, a gente não pode pensar a história como uma unidade, uma linha. Devemos olhar para a história com a abertura para apreciar a complexidade das sociedades humanas. Nada é só uma coisa ou só outra, há muitas nuances e tudo isso deve ser considerado”, conclui Maria Filomena Coelho.

Sobre a BDB Cultural

A BDB Cultural é uma iniciativa do governo federal, por meio da Secretaria Especial de Cultura, do Ministério do Turismo, em parceria com a Biblioteca Demonstrativa do Brasil Maria da Conceição Moreira Salles (BDB) e, por meio de um termo de colaboração, com a organização social Voar Arte para a Infância e Juventude. A agenda que o projeto executará na BDB segue até março de 2022.

“Com a BDB Cultural, vamos renovar a prática de ser uma referência a outras bibliotecas do país para que elas possam abrir suas asas para voos mais altos e dar vida aos seus espaços”, diz o coordenador-geral da BDB Cultural, Marcos Linhares.

Para saber mais sobre os próximos cursos e eventos oferecidos, acompanhe as novidades da BDB Cultural no Youtube (https://www.youtube.com/c/BDBCultural), no Facebook (https://www.facebook.com/bdbcultural), Instagram (https://www.instagram.com/bdbcultural/) e no site www.bdbcultural.com.br da iniciativa.

Sobre as convidadas

Mary del Priore é historiadora, pós-doutora pela École des Hautes Études de Paris e autora de mais de 50 livros de História do Brasil. Foi professora da USP e coleciona mais de vinte prêmios literários nacionais e internacionais, entre os quais três Jabutis. Consultora de consagrados diretores de cinema como Daniela Thomas, Beto Amaral, Elza Cataldo e Estevão Ciavatta, vem colaborando com documentários realizados para a televisão brasileira com enfoque em história. Com publicações como Uma Breve História do Brasil, traduzido até para o chinês, O mal sobre a terra, D. Maria I ou Histórias da gente brasileira, especializou-se em temas de sociedade tais como: história da mulher, da família e da criança. História da sexualidade. História da família Imperial brasileira. História da intolerância, racismo e homofobia. História do consumo e das transformações da intimidade.

Maria Filomena Pinto Da Costa Coelho é historiadora, doutora em História pela Universidad Complutense de Madrid e dois pós-doutorados, na Universidade Nova de Lisboa e na Università degli Studi di Firenze. Atualmente é professora do quadro permanente da Universidade de Brasília. Estudou a presença feminina no poder e a construção de autoridade por mulheres especialmente os monacatos femininos, as direções de mosteiros feitas por mulheres na Idade Média. Este trabalho a inspirou a escrever o livro Cabelos de Vênus, que mistura história e ficção para narrar uma trajetória de uma mulher e do entorno místico que a cerca no século XIII. Seus principais temas de pesquisa centram-se na Península Ibérica Medieval e sobre como a sociedade do período lidava com temas como poder e justiça; corrupção; e monacato (estudo da vida nos mosteiros).


Serviço:

BDB Cultural – Julho de 2021

"Mulheres empoderadas” debate “Mulheres e história” com a participação das historiadoras Mary del Priore e Maria Filomena Coelho. A mediação é de Adriana Kortlandt.

07/07 - Transmissão no Youtube e no Facebook da BDB Cultural, às 21h.

Outras informações:

Site www.bdbcultural.com.br

Facebook.com/bdbcultural

Instagram - @bdbcultural

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